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Uma expedição científica para o Suriname com a Maria Sibylla Merian

Fernanda Mariath
15 de junho de 2023
Revisado por Leopoldo C. Baratto

Quando eu comecei a ler Metamorphosis Insectorum Surinamensium (1705), as primeiras palavras da autora já me transportaram para junto dela. Na passagem inicial, Maria Sibylla Merian afirma que é óbvio que o abacaxi deveria aparecer no começo do livro, porque é o rei de todas as frutas e também a sua fruta favorita. Compartilhar a mesma fruta favorita com ela, foi o suficiente para eu embarcar junto em sua expedição rumo à América. Em 1699, embarquei nesse navio partindo da Holanda, acompanhando essa alemã de 52 anos, junto com sua filha mais nova, Dorothea, com o objetivo de conhecer, coletar, ilustrar e registrar os insetos e as plantas das florestas do Suriname: uma aventura científica.


Eu fiquei maravilhada com as suas ilustrações, que pulsavam vida, beleza, exuberância, perigo, interação, curiosidade e, às vezes, até repulsa. Quis deitar nas redes que ela descreveu que eram feitas com o algodão, quis experimentar o vinho feito a partir do caju, até dei uma chance e re-experimentei o mamão (que eu detestava), só porque ela me conquistou descrevendo o gosto agradável e como derretia na boca - ainda não gosto de mamão. Eu fechei o documento correndo e fiquei alguns dias sem conseguir abrir, por causa da imagem assustadora de uma enorme tarântula comendo um pássaro. Chorei na passagem que ela conta que as africanas e indígenas escravizadas buscavam sementes da Caesalpinia pulcherrima para abortar, pois acreditavam que assim seus filhos nasceriam livres. Me indignei junto dela quando relatou como a escravização era brutal e cruel. E também tive o mesmo questionamento: como ninguém enxergava a beleza e o potencial de tudo ao redor? Por que não se interessavam pelas plantas, além da cana-de-açúcar? Por que importam vinho, se poderiam cultivar vinhedos e inclusive exportar um vinho muito melhor? Fiquei curiosa sobre qual seria o gosto de cheesecake com geleia de goiaba do século 17, será que ainda seria meu doce favorito?


No entanto, principalmente, eu fiquei surpreendida e instigada com a Maria Sibylla Merian. Como uma mulher no século 17 embarcou em uma expedição sozinha, apenas com a sua filha, com propósitos inteiramente científicos? E como, em 1705, ela consegue publicar seu livro contendo suas ilustrações e seus achados? Não só publica, como também é reconhecida, lida e citada por diversos contemporâneos ilustres, como Linnaeus e Goethe. Ela anunciou o próprio livro no Philosophical Transactions, um dos primeiros periódicos do mundo. O nome dela está na fachada da Artis Library da Universidade de Amsterdã junto com outros 35 nomes de cientistas, todos homens. Eu estava, além de impressionada, apaixonada.


Busquei saber mais sobre ela e descobri que nasceu no dia 13 de abril de 1647, cinco dias e alguns séculos antes da minha querida avó. Maria Sibylla nasceu em uma família de editores e artistas de Frankfurt, na Alemanha. Seu pai, Matteus Merian, era um importante editor de livros e faleceu quando ela ainda era pequena. Sua mãe se casou novamente com o pintor de flores Jacob Marrel, que treinou Maria Sibylla artisticamente. Ela pintava flores até encontrar sua paixão: lagartas e sua metamorfose em borboletas e mariposas. Ela ilustrou e registrou todas as suas observações em seu diário, desde pequena, fazendo pequenos experimentos, acompanhando a metamorfose das borboletas e estudando sobre sua alimentação e interação com plantas e outros insetos.


Aos 16 anos, ela se casa com Johann Andreas Graff, que tinha sido aluno do seu padrasto. Eles se mudam para Nuremberg e tiveram duas filhas, Johanna e Dorothea. Graff teve dificuldade de se estabelecer como artista e, para ajudar a situação financeira, Maria Sibylla começa a dar aulas de bordado e pintura para famílias ricas da cidade. Ela publica livros com ilustrações de plantas para modelo de pintura e bordado. Enquanto isso, continua estudando insetos e indo a jardins para coletar lagartas. Por anos, ela observou e anotou sistematicamente o comportamento delas. Em 1679, publica a primeira edição de um livro sobre insetos europeus, contendo 50 placas de gravuras e comentários. Posteriormente, ela publicaria mais duas edições desse livro.


Aos 38 anos, deixa seu marido e com sua mãe e filhas, une-se aos labadistas, uma comunidade ortodoxa protestante em Frísia, Holanda. Se juntar a uma comunidade religiosa foi a solução para sair de um casamento infeliz. Mas foi, além disso, muito importante para os próximos passos dela. Ela aprendeu latim e continuou pesquisando sobre lagartas. Ela pode ver diversos insetos trazidos das colônias holandesas, que a desafiaram a viajar para o Suriname e vê-las na natureza.


Ela se impõe como naturalista em um mundo científico dominado por homens. E após dois anos no Suriname e quatro anos escrevendo tudo que investigou na América, publica sua grande obra: Metamorphosis Insectorum Surinamensium. O trabalho, que além de me transportar em sua aventura, é muito relevante para o estudo da metamorfose de insetos e anfíbios, para a ilustração botânica, para o ambientalismo, para a ecologia e diversos outros trabalhos. Inclusive o meu e do meu orientador, Leopoldo Baratto, sobre as plantas úteis, principalmente as medicinais, presentes nessa incrível obra, que gerou um artigo científico publicado no Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine (https://rdcu.be/deCiq).

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