Três cascas de jabuticaba
Leopoldo C. Baratto
13 de agosto de 2019
Fui criado em cidade do interior, “da roça”, como se diz. Naquele tempo, anos 90, brincávamos na rua o dia inteiro, pés descalços, correndo para lá e para cá. Esconde-esconde, pega-pega, gato mia, pula corda. Como é bom ser criança, não? Uma das maiores diversões era apanhar fruta na casa do vizinho. Quando não tinha ninguém em casa, pulávamos o muro e nos deparávamos com aquela enorme jabuticabeira. Os frutos redondos, brotando do tronco liso, casca brilhante, roxo intenso, quase negros. Os galhos da árvore eram como tentáculos de um polvo, ondulados, seguindo várias direções. Subíamos na árvore com a agilidade de criança e comíamos as jabuticabas sem parar, até rolarmos, empanzinados, de tanta fruta. Geralmente mordíamos a casca lisa, que estourava na boca e sorvíamos a polpa branca doce e úmida da fruta; a semente cuspíamos longe, para ver quem atingia maior distância. Minha mãe sempre dizia para primeiro comer três cascas das jabuticabas, antes de qualquer coisa, e depois podíamos comer somente a polpa. Seguindo fielmente a orientação, comíamos aquelas três primeiras cascas azedas e taníferas, sem questionar, mas também sem entender a lógica daquilo. E a rigor eram três cascas; não duas ou uma ou quatro. Três. O fato era o seguinte: caso não comêssemos as três cascas, "prenderia" o intestino, ou seja, provocaria uma forte constipação e ficaríamos muito tempo sem ir ao banheiro. E de fato era o que acontecia: algumas vezes não comi as três cascas e me dei mal. Agora, se comesse as três cascas, tudo permanecia normal. Nunca compreendi bem o fenômeno da trinca de cascas, pois justamente a casca da jabuticaba contém taninos, do tipo elagitaninos (castalagina e vescalagina são os principais!), que são substâncias com ação antidiarreica, ou seja, usadas para “cortar” a diarreia, como é o caso do chá das folhas de goiabeira. A polpa dos frutos também tem taninos, porém em menor quantidade. Num estudo clínico (1) realizado no Brasil com 35 voluntários, 63% dos pacientes apresentaram diarreia 10 horas após consumir o pó das cascas e sementes de jabuticaba. Os pesquisadores descobriram que os elagitaninos são sim, curiosamente, os responsáveis pelo efeito laxante, uma vez que agem diretamente no intestino e são metabolizados pelas bactérias da flora intestinal em várias substâncias, entre elas as urolitinas, que são metabólitos de excreção. A maioria das urolitinas é excretada pela urina após 48 horas, e também pelas fezes. O estudo mostra que as variações na flora intestinal influenciam na ocorrência de diarreia, pois pacientes que apresentaram baixos níveis de urolitinas na urina, relataram a diarreia. Provavelmente os elagitaninos aceleram o trânsito do intestino delgado (2), impedindo que as bactérias tenham tempo para metabolizar tais substâncias. Em um outro estudo com ratos, o consumo de cascas de jabuticaba levou ao aumento do volume de fezes, justificado pelo alto conteúdo em fibras. OK! Mas só três cascas seriam capazes de evitar constipação? Não sei. O que sei é que funciona! Quando a mãe da gente fala, a gente obedece, por que elas sempre têm razão.
Para se aprofundar mais:
(1) Inada, K.O.P.; Tomás-Barberán, F.; Perrone, D.; Monteiro, M. Metabolism of ellagitannins from jabuticaba (Myrciaria jaboticaba) in normoweight, overweight and obese Brazilians: Unexpected laxative effects influence urolithins urinary excretion and metabotype distribution. Journal of Functional Foods, v. 57, p. 299-308, 2019.
(2) Hsieh, S.K.; Xu, J.R.; Lin, N.H.;Li, Y.C.; Chen, G.H.; Kuo, P.C.; Chen, Y.C.; Tzen, J.T.C. Antibacterial and laxative activities of strictininisolated from Pu'er tea (Camellia sinensis). Journal of Food and Drug Analysis, v. 24, n. 4, p. 722–729, 2016.