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Tem química na feijoada: da tradição do uso do louro na alimentação aos benefícios na saúde

Victor Guimarães
22 de agosto de 2024
revisado por Leopoldo C. Baratto

O final de semana está chegando e não pode faltar aquela boa feijoada de sábado. Este prato é típico do Brasil e tem uma longa história. De acordo com as diferentes narrativas históricas, há um consenso sobre seu surgimento no século XVIII. Acredita-se que a feijoada tenha sido criada pelos africanos escravizados trazidos para o Brasil, que recebiam restos de carnes menos nobres, como carne seca, charque, costelinha, linguiça e paio. Esses ingredientes eram cozidos lentamente, o que permitia que os sabores se integrassem e resultassem em um prato muito suculento.


Embora o prato tenha ganhado originalidade no Brasil devido ao uso do feijão preto, há precedentes na culinária romana, onde misturavam diferentes tipos de carnes com feijão. Além disso, os europeus tinham o costume de preparar, no período colonial, o “cassoulet”, um guisado de feijão branco com carne de ganso, cozinhado lentamente ao fogo. Assim, é possível ver que o famoso prato brasileiro tem influências de outras tradições culinárias. Mas o que torna a feijoada particularmente especial? Além do feijão preto, o Brasil se destaca pelo seu tempero! Entre o clássico alho e cebola, adicionam-se ervas que conferem um diferencial ao paladar e ao aroma, como a folha de louro. Ela não está na composição do prato por acaso; representa muito mais do que sabor!


A folha de louro é uma planta muito importante na culinária, geralmente usadas na culinária para temperar carnes e peixes. Ela provém da espécie arbórea Laurus nobilis L., pertencente à família Lauraceae. É conhecida popularmente como louro verdadeiro, romano ou turco e louro doce. Originária da região mediterrânea, que inclui partes da Europa, Ásia Ocidental e Norte da África, a planta ganhou espaço nas cozinhas de todo o mundo através das navegações em busca de especiarias e da colonização europeia, chegando, então, às Américas. A planta era valorizada na Grécia e Roma Antigas, onde recebeu diferentes simbolismos. Para os gregos, simbolizava triunfo e honra, representados por coroas tecidas com as folhas e entregues aos vencedores dos Jogos Olímpicos. Daí surgiu o termo "ser laureado", que representa glória e vitória. Já os romanos associavam a planta ao poder e prestígio. Imperadores e generais usavam coroas de louro como símbolo de autoridade e conquista, uma prática que refletia o status e a excelência em diversas esferas da vida pública e militar.


As folhas de louro são ricas em moléculas bioativas e apresentam propriedades antioxidantes, antimicrobianas e anti-inflamatórias, comprovadas cientificamente. Entre suas partes vegetativas, as folhas são as mais utilizadas, embora os frutos também sejam empregados em usos populares e no preparo de sabão devido à presença de óleos fixos. As folhas contêm importantes classes de compostos bioativos, tais como compostos fenólicos (kaempferol e seus derivados, luteolina e quercetina e seus derivados), antocianinas (cianidina 3-O-glicosídeo e cianidina 3-O-rutinosídeo), e terpenos (1,8-cineol, α-terpinil acetato, α-terpineol, bem como α- e β-pineno, sabineno e eugenol).


Mas afinal, como ela chegou aos temperos das cozinhas? Como foi incorporada à feijoada? Não há relatos precisos sobre a inclusão da planta na comida, contudo, sua relação com a digestão está intimamente ligada. Historicamente, foi usada na medicina tradicional para aliviar problemas gastrointestinais, como inchaço e flatulência. Isso é atribuído à sua capacidade de estimular a secreção de fluidos gástricos, como a bile e enzimas digestivas. Portanto, a adição do tempero ajuda a amenizar os efeitos de um prato com alto teor de gorduras, como a feijoada, que pode dificultar a digestão. Estudos científicos confirmaram que 5 g da droga vegetal em 100 mL de água durante 10 dias de consumo promoveu melhora do colesterol HDL, concomitante à redução do perfil lipídico (triglicerídeos e colesterol total).


Outros efeitos biológicos da folha de louro também foram observados. Estudos demonstraram atividade neuroprotetora da fração n-hexânica das folhas de Laurus nobilis em células de glioblastoma, por meio da redução de espécies reativas de oxigênio. Resultados similares foram encontrados para extratos ricos em compostos fenólicos ou extratos alcoólicos. O efeito antiproliferativo também foi investigado, com redução das populações de células de adenocarcinoma de mama (MCF7) sob tratamento com extrato alcoólico das folhas. Esse achado foi reforçado pela ação antimutagênica da fração de acetato de etila das folhas, demonstrando seu potencial como adjuvante no tratamento do câncer. Além disso, o efeito antidiabético foi relatado em estudos pré-clínicos e clínicos, com redução da glicemia plasmática associada à diminuição do perfil lipídico e das transaminases.


Por fim, é importante lembrar que essa especiaria possui compostos que são suscetíveis à degradação por meio da temperatura, especialmente durante um longo tempo de cozimento do feijão e da carne. Nesse sentido, a adição do louro após o cozimento ajuda a manter a maioria dos compostos bioativos presentes. Assim, adicioná-los após o cozimento para a redução do caldo e a espessamento da consistência seria o ideal. Além disso, é importante lembrar que as quantidades presentes no preparo da feijoada são pequenas para alcançar os efeitos biológicos desejados. A frequência de consumo também deve ser considerada para observar seus efeitos. Portanto, lembre-se de não exagerar no prato!

Um bom apetite para quem ficou com água na boca!

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