Este site pertence a Leopoldo C. Baratto, fundador e coordenador do PlantaCiência. 2019.
top of page

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): o que a Fitoterapia tem a ver com isso?

Ana Carla Prade
06 de junho de 2024

Você já ouviu falar em ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável)? E o que isto tem a ver com fitoterapia e Farmácia Viva?


Com o objetivo de ampliar a nossa leitura sobre o assunto, venho abordar nesta coluna do PlantaCiência a possibilidade de integrar os ODS nos programas Farmácias Vivas e nas cadeias produtivas de plantas medicinais. Ao considerar a fitoterapia como uma prática transdisciplinar, é essencial reconhecermos o papel fundamental que referenciais ambientais e planetários desempenham no fortalecimento dos nossos programas dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) e fora dele. Mas será que estas metas são suficientes para “adiar o fim do mundo”?


Durante a Rio+20, conferência das Nações Unidas realizada no Rio de Janeiro em junho de 2012, os 193 Estados membros se reuniram para discutir o desenvolvimento sustentável. Este conceito visa atender às necessidades da geração atual sem comprometer a capacidade das futuras gerações de satisfazerem suas próprias necessidades (e a verdadeira sustentabilidade tem muito a ver com o que vamos deixar para o futuro). Foi nesse evento que surgiram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), um plano de ação composto por 17 objetivos globais a serem alcançados até 2030. Esses objetivos foram estabelecidos para promover o crescimento e a cooperação entre todos os países em uma agenda comum de sustentabilidade. Os 17 ODS podem ser conferidos na figura ao final do texto.


No contexto dos programas Farmácias Vivas e da cadeia produtiva de plantas medicinais e fitoterápicos, a incorporação desses objetivos deve ser considerada e deveria fazer parte do plano de trabalho. Pense comigo: quais ações e estratégias dentro da cadeia produtiva (pública e privada) contemplam estes objetivos?


Ao observarmos os programas de fitoterapia no SUS, percebemos que o uso racional dos recursos naturais e ambientais deveria ser um pilar fundamental. Desde o cultivo das plantas até sua aplicação terapêutica, é necessário adotar práticas que minimizem o impacto ambiental e promovam a conservação da biodiversidade, bem como a sua valorização. O manejo sustentável das espécies cultivadas, congruente com os princípios de extrativismo responsável, deve garantir a preservação dos ecossistemas locais. Essa abordagem converge diretamente com os ODS e os conceitos de sustentabilidade.


Mas de qual sustentabilidade estamos falando?


Ailton Krenak, em seu livro “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, nos lembra da urgência em mudarmos nossa atitude com o planeta. Muito além do conceito útil de sustentabilidade e de um discurso politicamente correto que esta palavra carrega em si, é importante compreendermos que não somos o centro da terra. Temos a triste “mania” secular de achar que tudo o que está sob o planeta é utilitário para nós. Krenak traz a palavra “devorar” como representativa das nossas atitudes com a terra. Se não pararmos com esta gula insaciável nossos descendentes terão que se contentar com amostras grátis do que hoje são as nossas matas, os rios, as montanhas, enfim. Essa ideia é extremamente provocativa e nos faz ir além da simples produção de fitoterápicos e dos conceitos corporativistas em torno da sustentabilidade. Lembro aqui que Krenak questiona os ODS e nos leva à ampla reflexão sobre o assunto.


Precisamos começar por algum lugar e os ODS da ONU são um ponto de partida. Integrar os ODS nas Farmácias Vivas amplia os objetivos desses programas para além da produção de fitoterápicos, o que é algo maior do que temos na atualidade. Um programa de saúde que adota os princípios dos ODS pode sensibilizar toda comunidade sobre a importância da conservação ambiental e do uso racional dos recursos naturais. Além disso, educar a população sobre práticas sustentáveis ajuda a fomentar uma consciência coletiva voltada para a preservação do meio ambiente.

No contexto específico de São Bento do Sul-SC, onde atuo, estamos trabalhando para alinhar nossas práticas de fitoterapia com os ODS e muito além. Por aqui atualmente contemplamos os ODS 3 (boa saúde e bem estar), 4 (educação de qualidade), 6 (água limpa e saneamento), 7 (energia acessível e limpa), 11 (cidades e comunidades sustentáveis),12 (consumo e produção sustentáveis), 13 (combate às alterações climáticas), 15 (vida sobre a terra) e 17 (parceria em prol das metas). Estamos desenvolvendo estratégias para reduzir o uso de recursos naturais, promovendo o uso de técnicas de cultivo sustentável e incentivando a reciclagem e reutilização de materiais. Nossos canteiros foram construídos com blocos de um material de construção produzido na usina de lixo da nossa cidade, por exemplo. A nossa espinheira-santa é cultivada em área de pagamento por serviços ambientais e contribui para preservação do leito das nascentes e da bacia hidrográfica que abastece a cidade. As ações de educação ambiental em 2024 incluirão banhos de floresta, prática de caminhada consciente e contemplativa em uma das trilhas urbanas de São Bento do Sul. Não há nada mais certeiro em educação ambiental do que proporcionar experiências reais com as plantas, conexões verdadeiras e profundas.


Estas ações nos integram e podem nos ajudar a interromper este processo de “descolamento” do humano em relação ao planeta (parafraseando nosso mestre, Ailton Krenak, novamente).

Integrar os ODS nos programas Farmácias Vivas é um passo possível para promover a saúde alinhada com objetivos maiores, maiores do que nós. Precisamos de um compromisso coletivo, envolvendo gestores, profissionais de saúde e a comunidade, para implementar práticas que estejam alinhadas com esses objetivos globais e que sejam centradas no planeta, não apenas nos humanos. Apenas através de um esforço conjunto, poderemos assegurar que a fitoterapia contribua para um futuro mais sustentável e saudável para todos.


Neste momento estamos todos solidários ao povo gaúcho, terra de onde vim e que honro todos os dias. A tragédia que ocorreu no Rio Grande do Sul precisa ser um despertar para todos os humanos.

Colunas - Slideshow
bottom of page