O Nim na visão oriental: potencial medicinal da Azadirachta indica
Nina C. Barboza da Silva
30 de setembro de 2020
Ainda me lembro do dia em que ouvi falar do uso do nim (Azadirachta indica A. Juss, Meliaceae) no contexto do Ayurveda. Foi numa das aulas da formação que eu estava cursando junto à Associação Brasileira de Ayurveda, quando o professor começou a listar suas propriedades, características e aplicações de acordo com a medicina tradicional indiana. Num primeiro momento eu fiquei bastante surpresa e até um pouco temerosa pois, apesar de conhecer a planta, sempre a associei com propriedades inseticidas e tóxicas. No Ocidente, a planta é conhecida pelo seu potencial inseticida devido a presença de limonoides, chamados azadiractinas, no óleo das sementes, com aplicação na agricultura.
O nim, ou ainda Nimba, como é conhecida em sânscrito, é uma das plantas mais versáteis no Ayurveda, com citação de uso em diversos textos de referência importantes, dentre eles o Charaka Shamhita, o que significa dizer que há registro escrito do uso desta espécie há pelo menos 2.500 anos. Também é encontrada na Farmacopeia Ayurvédica da Índia, onde estão descritas as monografias para folhas, cascas do caule, cascas da raiz, flores e frutos. Mas afinal, como o nim é utilizado nesta medicina tradicional?
Dentro da rotina diária descrita nos textos clássicos, uma das práticas para garantir a boa saúde é escovar os dentes. Porém, imaginem como era praticada essa ação tão simples há mais de 2.500 anos! Segundo Charaka: “Deve-se limpar os dentes com um galho verde de ponta esmagada e de sabor adstringente, picante ou amargo, duas vezes ao dia, sem ferir a gengiva. Isso remove a halitose, induz o gosto pela comida, removendo as impurezas da língua, da boca e dos dentes, e limpa os dentes instantaneamente”. Embora Charaka não especifique o uso do nim, Sushruta, outro de nossos autores de referência, afirma que “Dentre as drogas de sabor picante/pungente, Nimba é a melhor para escovar os dentes”. Numa das aulas durante o curso que fiz lá na Índia aprendemos a usar esta técnica tradicional, confeccionando nosso próprio “instrumento de escovar os dentes” com os galhos verdes do nim, o que obviamente não é mais necessário já que temos a escova de dentes para desempenhar tal papel atualmente. Entretanto as recomendações de usar algum elemento com as mesmas qualidades (adstringente, picante ou amargo) deve ser levada em consideração e talvez por isso muitas das pastas de dentes encontradas na Índia ou comercializadas aqui como “ayurvédicas” contenham na sua composição nim e outras ervas com essas características organolépticas.
Já que mencionamos as qualidades do nim, sabemos que as drogas usadas no Ayurveda são sempre classificadas de acordo com sabor (rasa), qualidades (guna), potência (virya) e sabor pós-digetivo (vipaka) e a sua escolha como elementos terapêuticos leva em consideração estas características. O nim possui sabor amargo e adstringente, qualidade leve, potência fria e sabor pós-digestivo picante. Seus usos medicinais são muitos. Vagbhata, autor do Asthanga Sutrastana e Asthanga Hrdraya, sugere a aplicação de gotas de óleo de nim no nariz, técnica chamada de Nasya, no tratamento de alopecia e cabelos brancos. Sushruta indica o suco da folha contra verminoses, icterícia e desordens na pele e, juntamente com outras drogas, como diurético. O uso oral de Haritaki (Terminalia chebula) ou Amalaki (Phylanthus emblica) junto com Nimba resolve todos os tipos de problemas de pele. No Charaka Samhita as indicações terapêuticas também são variadas: epilepsia, cicatrização de úlceras (externas e internas), hemorroidas, anemia, erisipela, problemas digestivos, do sangue e do sistema geniturinário. Chama a atenção a indicação para Prameha, que é um conjunto de distúrbios clínicos complexos caracterizados por micção anormal frequente, com etiologia envolvendo predisposição genética, bem como dieta e estilo de vida inadequados. As condições clínicas descritas no Prameha têm muito em comum com o que a medicina moderna ocidental denomina “diabetes mellitus”.
As formas de uso variam entre sumo (swarasa), pasta (kalka), óleo (taila), pós (churna) e são utilizadas de diferentes maneiras. Alguns exemplos da relação forma de preparo/uso encontrados no Sarngadhara Samhita são, para formulações simples, o uso do sumo com mel para tratar icterícia, a pasta feita com as folhas jovens aplicada externamente sobre feridas auxilia na cicatrização e, se ingerida, alivia vômitos, doenças de pele e doenças causadas por excesso de Pitta e Kapha Doshas e também parasitoses. Já em formulações complexas, temos a pasta feita com folhas de nim, manteiga ghee, mel, gergelim, Madhuka (Madhuca longifolia) e Darvi (Berberis aristata), que quando aplicada em feridas limpa a lesão e ajuda na cicatrização; a ciência ocidental moderna tem demonstrado o efeito antisséptico do nim.
Na Farmacopeia Ayurvédica Indiana as indicações terapêuticas são as mesmas encontradas nos textos clássicos já citados. Estão descritas também 3 formulações contendo nim (Pancatikta Ghrta, Nimbadi Churna e Jatyadi Ghrta) e outras plantas. Apesar de não constar na Farmacopeia, vale mencionar a Nimba arishta que é uma preparação ayurvédica obtida pela fermentação da decocção de casca de nim adicionada de açúcar e uma pasta que pode consistir de diferentes materiais vegetais, dentre eles as flores de Woodfordia fruticosa, e que vão contribuir com as leveduras responsáveis pela produção de etanol na fermentação. Esta arishta foi investigada devido suas propriedades imunomoduladoras. Todas estas indicações e formas de uso contribuem para justificar o nome “neem” dado à Azadirachta indica, que significa “ser livre de todas as doenças” ou ainda a aplicação do termo “panaceia” dado à planta por alguns autores modernos.