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O chazinho à moda indiana; como os remédios são preparados na medicina ayurvédica

Nina C. Barboza da Silva
23 de julho de 2020

Nestes dias frios de inverno, muitos de nós apreciamos um bom chá para aquecer o corpo, a alma e também tirarmos proveito dos benefícios medicinais que alguns deles possuem. Charaka, autor do Charaka Samhita, um dos textos clássicos do Ayurveda, afirma que “Não existe uma única substância na Terra que não possua valor medicinal”. Ele classifica as substâncias em 3 grupos: comida, medicamento e veneno, havendo, algumas vezes, sobreposição entre estas categorias. Neste sentido, o conceito de droga para o Ayurveda é baseado principalmente no tipo de atividade que as substâncias desempenham no corpo humano, existindo, então, aquelas que contêm ingredientes que fornecem essencialmente alimento ao corpo (“Ahara Dravya”), aquelas que são terapeuticamente ativas (“Ausadhi Dravya”), e as que podem ser fatais se usadas sem os devidos cuidados (“Visha Dravyas”). Em todos os casos, estas substâncias, sejam de natureza vegetal, animal ou mineral, dificilmente podem ser usados com finalidade terapêutica em sua forma natural, havendo a necessidade de passar por um processamento específico para que possa ser administrada ao ser humano. No Ayurveda, o ramo que é responsável pela formulação e preparação de medicamentos, predominantemente de origem vegetal, é chamada de Bhaisajya Kalpana.


Se você é farmacêutico ou estudante de Farmácia deve estar pensando que aqui, no ocidente, há também uma área das Ciências Farmacêuticas que lida com a transformação da droga em uma forma farmacêutica ideal para maior absorção no corpo e a fabricação de medicamentos, chamada de Farmacotécnica. Assim como na farmacotécnica ocidental, as formulações ayurvédicas variam amplamente de suco de planta recém-extraído a colírios, pomadas, tabletes, xaropes, etc. Pois bem, independente das características da matéria-prima vegetal utilizada e da forma farmacêutica final obtida, existem cinco formas clássicas básicas a partir das quais todas as outras são desenvolvidas: Swarasa, Kalka, Hima, Faanta e Kwaatha.


Calma! Não se assuste com os nomes que já vou explicar cada um deles e vocês poderão perceber as semelhanças e diferenças com algumas preparações ocidentais:


a) Swrasa é o sumo obtido da expressão ou trituração mecânica de ervas e frutos, sem adicionar água ou, quando necessário, adicionando o mínimo possível de água. Deve ser usada imediatamente após o preparo e conservadas em geladeira por no máximo 12 h.


b) Kalka é uma pasta fina obtida pela trituração de plantas das quais o suco não pode ser extraído por terem menor conteúdo de água. Água, ghee (manteiga clarificada) ou mel podem ser usados como adjuvantes para a obtenção da pasta que pode ser usada tanto interna quanto externamente e conservadas por até 6 h.


c) Sheeta (ou Hima), é uma maceração à frio, obtida imergindo a planta seca rasurada ou em pó em água fria, limpa e fresca, na proporção de 1:6. Se forem usadas folhas, flores ou sementes, a maceração deve ocorrer por 10-12 h e, no caso de parte duras como cascas, caules e raízes, por 24 h. No dia seguinte, a mistura é filtrada e pode ser usada por, no máximo 24 h.


d) Faanta (ou Phantam) é a infusão preparada colocando as drogas rasuradas ou em pó em água fervente, cobrir o recipiente, esperar esfriar e filtrar. Aqui reconhecemos a nossa boa e velha infusão ou, popularmente falando, o “chá abafado”.


e) Kwaatha (ou Srita Kashaya) é a fervura em água de plantas frescas ou secas que apresentam consistência mais resistente em proporções droga:água variadas de acordo com seu grau de dureza (macias 1:4; médias 1:8; duras 1:16). Aposto que você está pensando: é aquilo que chamamos de decocção, o “chá fervido”. Bem, você tem razão e neste ponto as preparações são bem semelhantes, porém há um detalhe na obtenção desta decocção que faz muita diferença do ponto de vista da composição química resultante. Na Kwaatha, as plantas são fervidas em fogo baixo até que a quantidade inicial de água seja reduzida a ¼. Apesar desta forma de preparo não ser utilizada para espécies que produzem óleos essenciais, sabemos que o processamento térmico pode influenciar a composição química da planta, alterar os bioativos e, em alguns casos, levar a formação de novos conjugados fitoquímicos.


Vemos como é importante conhecer a racionalidade dos diferentes sistemas médicos tradicionais, como é o caso do Ayurveda. Não podemos simplesmente transpor o uso que fazemos de uma planta aqui no Brasil, considerando o modo de obtenção de uma decocção do nosso ponto de vista, e prepará-la conforme a farmacotécnica ayurvédica. O contrário também acontece: uma planta utilizada na medicina tradicional ayurvédica preparada sob uma ótica ocidental; muito provavelmente os efeitos terapêuticos podem não se reproduzir, tendo em vista que o processo de preparo da forma farmacêutica irá influenciar no perfil fitoquímico e na concentração dos princípios ativos. É necessário integrar saberes e práticas, analisar os conhecimentos tradicionais sob o ponto de vista do outro para, então, compreender, de acordo com a prática local, os métodos de processamento e transformação das plantas medicinais. Agora vocês sabem que o chazinho que se bebe aqui pode não ser o mesmo que o que se bebe lá! Por falar nisso, vai um chá quentinho aí?

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