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Levantamento etnobotânico e sua importância no Programa de Fitoterapia de São Bento do Sul-SC

Ana Carla Prade
03 de dezembro de 2020

Quando iniciamos o planejamento do Farmácia Viva em São Bento do Sul a primeira questão a ser resolvida era quais plantas medicinais iriamos trabalhar. As questões “onde?” e “como?” já estavam previamente sanadas, uma vez que já tínhamos local para cultivo (hortas comunitárias) e mão-de-obra disponível (coordenador e voluntários). Nas pesquisas realizadas sobre Farmácia Viva e no próprio Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, a questão do território aparecia como algo de suma importância no processo de seleção das plantas medicinais, tanto na questão da tradicionalidade de uso quanto na questão do bioma em que nosso município estava inserido.


Mas como adquirir estas informações?


Foi então que um termo surgiu durante as minhas pesquisas: a Etnobotânica.


Segundo as pesquisadoras Rubia Pzalaft e Ariane L. Peixoto, a Etnobotânica é o estudo das sociedades humanas, passadas e presentes, e suas interações ecológicas, genéticas, evolutivas, simbólicas e culturais com as plantas. A professora de Farmacologia e Etnofarmacologia da UFRGS, Elaine Elizabetsky (que foi minha professora inclusive), refere que, quando aplicada ao estudo de plantas medicinais, a Etnobotânica permeia também a Etnofarmacologia: "Como estratégia na investigação de plantas medicinais, a abordagem etnofarmacológica consiste em combinar informações adquiridas junto a usuários da flora medicinal (comunidades e especialistas tradicionais), com estudos químicos e farmacológicos".


Obviamente no SUS não seria possível desenvolver algo tão estruturado, com todas as informações que um estudo etnobotânico deveria ser composto. Nosso objetivo com esta pesquisa era fazer um levantamento das espécies mais utilizadas pela comunidade, apontar os possíveis atores da medicina tradicional e compreender como a população estava utilizando a fitoterapia em suas casas.

Para realizar esta pesquisa com a comunidade recrutamos um time de trabalhadores do SUS, as Agentes Comunitárias de Saúde. Pela característica da profissão e suas atribuições dentro de uma equipe de saúde, asseguro a vocês que não há profissional que mais conheça os territórios em uma cidade. São profissionais da linha de frente que conhecem as famílias, as suas casas, os seus hábitos. Estas profissionais monitoram a saúde, verificam as demandas da comunidade e trazem estas informações para as Unidades de Saúde.


Quando realizamos a primeira reunião com estes profissionais e apresentamos a eles o que era o Programa de Fitoterapia de São Bento do Sul, tivemos grande adesão. Em primeiro lugar porque eles, de imediato, já apontaram as possíveis pessoas dos seus territórios que tratavam a comunidade com plantas medicinais e, em segundo lugar, porque a fitoterapia é uma prática popular. Apresentamos a eles o questionário com perguntas objetivas e subjetivas sobre o uso de plantas medicinais e como aplicá-lo em suas visitas de rotina. Após terminada a fase de entrevistas, estes questionários retornavam ao Posto de Saúde e as enfermeiras responsáveis pela Unidade fariam um compilado das informações.


Após 90 dias de entrevistas e levantamentos de dados, chegamos a mais de mil questionários preenchidos, recheados de informações preciosas. A partir desta pesquisa conseguimos verificar quais as plantas mais utilizadas, onde as pessoas procuravam informações sobre elas (livros, internet, vizinhos, familiares), como elas eram preparadas (infusão, decocção, maceração etc) e para quais enfermidades eram utilizadas. Vários mestres da medicina tradicional foram identificados e em particular uma senhora, a Dona Elvira. Dona Elvira, na época com aproximadamente 65 anos, havia sido Agente da Pastoral da Saúde por mais de 30 anos e era uma profunda conhecedora das plantas medicinais e das suas aplicações. A Agente Comunitária que visitou sua casa nos contou que precisou de mais de um dia de visita para fazer uma compilação de tudo que Dona Elvira tinha em seu quintal medicinal. Conforme a foto que coloquei junto a este texto, assim ela pediu à ACS para que documentasse as suas espécies. Não tinha conhecimento do nome científico delas, mas deixou claro que "não há erva parecida quando falamos de plantas medicinais, cada uma é única”. Levei esta frase para todas as Oficinas que ministrei no SUS nos anos seguintes.


Este trabalho maravilhoso nos deu subsídios para discutir muitas questões relacionadas às Plantas Medicinais e Fitoterapia em nosso município. Verificamos que a maioria das espécies utilizadas pela população são exóticas adaptadas, possuem raízes culturais vinculadas aos nossos colonizadores (comunidade alemã e polonesa) e que absorveram, em menor intensidade, um pouco dos saberes indígenas na região (etnia Xokleng/Laklãnõ) com o uso da Monteverdia ilicifolia (espinheira santa), Bauhinia forficata (pata-de-vaca), entre outras espécies nativas.


Verificamos também que apenas 1% dos entrevistados relatavam aos médicos das Unidades de Saúde que utilizavam plantas medicinais e que aproximadamente 90% da população fazia uso delas. A internet foi uma fonte de informação citada, mas concluímos que vizinhos e parentes são os mais procurados. Entre as várias informações que compilamos, uma das mais impactantes foi que a maioria acha que, por ser de origem natural, as plantas medicinais não fazem mal à saúde. Um jargão que ainda predomina.


De posse desta riqueza de informações, o próximo passo era desenvolver uma forma de retornar à comunidade, em forma de troca de saberes e conhecimento, todas as informações adquiridas. Para Patzlaff e Peixoto (2009) “a questão do retorno, embora antiga, tomou força principalmente diante dos compromissos da sociedade com conservação, uso sustentável e repartição de benefícios derivados da utilização da biodiversidade, especialmente em países mega diversos, como o Brasil”. Diversos artigos citam Miguel N. Alexiades (1996), que refere que estes estudos deveriam beneficiar de alguma forma as pessoas envolvidas, individual ou coletivamente. Segundo Mariana Quinteiro (2013), “apesar dessas recomendações, a análise de artigos científicos sobre Etnobotânica revela pouquíssimos casos de retorno e aplicabilidade dessas pesquisas, o que deixa uma lacuna quanto a essa questão”.


A forma que encontramos de retornar à comunidade os saberes compartilhados foi através de “Oficinas de Plantas Medicinais”. Ministradas pela farmacêutica que vos fala, em dois anos foram aproximadamente 71 oficinas. Os encontros eram realizados nas Unidades de Saúde, Associações de Moradores e Hortas Comunitárias. Foram dois anos de muito aprendizado e carinho dedicados à comunidade, aos profissionais de saúde que participaram e às plantas medicinais. Identificamos muitas espécies em conjunto, conversamos sobre a importância da identificação botânica, preparamos xaropes, infusões, pomadas e muito mais. Tiramos dúvidas e ao final concluímos esta etapa com gosto de quero mais. Houve engajamento e participação. As informações apresentadas continham um olhar horizontal ao saber popular, respeitado e considerado em sua grandeza. Todos os participantes tinham voz e vez e a palavra “isto não está correto” não foi pronunciada. Nas Oficinas, compartilhei o saber científico da seguinte forma: “que bom que você trouxe esta informação, tenho outra para compartilhar com você que também pode ser útil”.

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