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As Camélias do Quilombo do Leblon: uma planta que simboliza uma luta negra!

Gilberto C. Oliveira
06 de agosto de 2020
Revisão: Leopoldo C. Baratto

“Somos assim, capoeiras das ruas do rio, será sem fim o sofrer do povo do Brasil”


Esse é um trecho de uma canção escrita por Gilberto Gil e Caetano Veloso em 2015.


Existem muitas histórias que não são contadas e hoje eu acredito que é essencial olharmos para as histórias do nosso passado para construirmos os caminhos do futuro.


O Brasil foi território de uma das piores atrocidades da humanidade: a escravidão do povo negro. Foram mais de 300 anos nessa condição, onde o negro foi objetificado e tratado como um produto de prateleira de mercado, “coisificado”, mas esse texto não é para tratar somente das dores. Os escravizados, desde o início, se rebelaram à essa condição imposta pelos colonizadores, os homens brancos. No entanto, aprendemos sob um ponto de vista que nos leva a pensar que os negros “aceitaram” e eram “passivos” às condições deploráveis de sobrevivência. A verdadeira história não foi exatamente assim. Houve muita resistência, muitas rebeliões, muitas histórias e contos de luta negra, daqueles que conseguiam fugir e criar lugares de acolhimento, e uma dessas histórias nos fala da criação dos quilombos.


Quilombos, termo usado na África Central para designar acampamentos improvisados, foi o nome dado às comunidades criadas pelas negras e negros que conseguiam fugir das fazendas de engenho ou dos centros urbanos. Existiram várias espalhadas pelo Brasil, a mais famosa chamada de “Quilombo de Palmares”, e também uma criada em um território que hoje conhecemos como bairro do Leblon, na cidade do Rio de Janeiro, chamada de Quilombo do Leblon.


E o que esse quilombo tem a ver com as flores das camélias?


Na região onde está situado o bairro do Leblon havia quilômetros de terras que pertenciam a um proprietário francês. Certa vez apareceu um comerciante português chamado José de Seixas Magalhães, interessado nas terras e que acabou comprando esse terreno. Logo, as terras viraram um espaço de plantação de diversas flores e pouco tempo depois, também viraria um quilombo, pois José era um articulador junto a vários abolicionistas da época. Os abolicionistas eram um grupo político de intelectuais que enfrentava o poder do Império e ajudaram na libertação dos escravizados. Quero destacar que havia negros nesse grupo político, como Luiz Gama, que auxiliava, em processos jurídicos, os escravizados a conseguirem as cartas de alforria; José do Patrocínio, que por muito tempo foi visto como um traidor do movimento, mas historiadores dizem que ele tinha um importante papel por transitar em diversos espaços sociais da época; André Rebouças, engenheiro que morava em São Paulo, ajudou em muitas discussões em prol da liberdade dos escravizados; entre outros.


Portanto, diversos negros que conseguiam fugir começaram a ir em direção ao Quilombo do Leblon, e esse, junto de outros quilombos que se tornaram famosos e “divulgados”, se tornou ponto estratégico para a liberdade. E aqui começamos a entender como uma espécie vegetal ajudou nessa luta, pois as benditas camélias tornaram-se um símbolo dessas fugas. Segundo o historiador Eduardo Silva, principal pesquisador desse quilombo, a flor servia como uma espécie de código. Os abolicionistas usavam um ramo das flores nas suas vestimentas e desse modo podiam ser identificados, principalmente quando eles eram responsáveis por ajudar os escravizados que fugiam para o Rio de Janeiro vindo de outros lugares, como São Paulo ou Minas Gerais. As camélias, do gênero Camellia spp. e pertencentes à família Theaceae, se tornaram um símbolo abolicionista poderoso, e eu fico pensando quantos ramos delas ajudaram os escravizados a se guiarem e encontrarem os refúgios.


Por curiosidade, pode-se falar da espécie vegetal Camellia sinensis (L.) Kuntze, conhecida como chá da Índia e considerado o mais famoso do mundo. Tecnicamente, o termo "chá" refere-se à bebida preparada pela infusão de folhas de Camellia spp. (o que chamamos de chá, como por exemplo chá de camomila, é na verdade uma infusão de ervas!). Você já ouviu falar do chá verde, chá branco, chá preto e chá amarelo? Pois então, todos esses são variedades de bebidas da mesma planta, e se diferenciam devido ao processo de secagem, fermentação e preparação, cujos sabores e aromas mudam. Atualmente, o chá é uma das bebidas mais consumidas do mundo e diversos estudos mostram suas propriedades medicinais, entre elas ação antioxidante, termogênica, anticarcinogênica e anti-inflamatória, devido principalmente ao seu conteúdo em catequinas, uma classe de substâncias derivadas da via dos flavonoides.


As plantas contam histórias e eu, cada vez que mergulho nessas narrativas, descubro um jeito interessante de fazer ciência no campo da Etnobotânica Histórica, que coloca o pesquisador dentro da perspectiva desses registros, em contextos sociais e políticos também. Observo que há possibilidades da recuperação dos valores dos meus ancestrais, revisitando os conhecimentos populares, de como plantas brasileiras e exóticas estavam e estão presentes nas culinárias do povo preto, do povo indígena também, e de como ao longo do tempo essas espécies passaram de mãos em mãos recolhendo vivências.


Enfim, termino esse texto, que tem como título o mesmo nome da canção de Gil e Caetano, parafraseando novamente outro trecho dela:


“As camélias da segunda abolição

As camélias da segunda abolição

As camélias da segunda abolição

Cadê elas?”

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