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As acácias e mimosas sagradas: propriedades psicoativas de plantas ritualísticas

Hélio de Mattos Alves
09 de junho de 2021
Colaboração: Leopoldo C. Baratto

As espécies do gênero Acacia (Fabaceae) sempre foram consideradas plantas sagradas por diferentes povos e culturas de todo o mundo. No Papiro de Ebers existe um "Tratado dos olhos", com uma centena de receitas, que nos dá uma ideia do campo de conhecimentos dos médicos egípcios. Eles conheciam a pupila, a esclerótica, as pálpebras, os cílios e as sobrancelhas, mas não ignoravam a estrutura interna do olho: a conjuntiva, a córnea, o cristalino etc. Como remédios, usavam folhas de Vachellia nilotica (syn. Acacia nilotica), sob a forma de compressas e colírios. No Papiro de Ebers, e no de Kahun (aproximadamente 1550 AEC), afirma-se que mel e extrato de sumo de acácia formavam uma pasta viscosa que era inserida como um absorvente interno e utilizado como anticoncepcional. Esta mesma espécie foi descrita por Dioscórides em sua Materia Medica, que utilizava um preparado com as folhas e vagens. Várias espécies do gênero Acacia são conhecidas por biossitentizarem alcaloides que são psicoativos nas suas folhas, caules e frutos (vagens).  Os mais conhecidos são dimetiltriptamina (1), feniletilamina  e tetra-hidroharmano (3).


No Brasil temos a herança indígena do Nordeste da “Jurema Sagrada” ou Catimbó.  Desde o “descobrimento” do Brasil existem relatos que por meio de cantos, danças, infusões, cachimbos e dizeres sagrados, os índios se colocavam em contato com seus antepassados. Nos rituais, os índios sonhavam e quando retornavam dos sonhos, eram as mulheres que interpretavam o significado dos sonhos e previam o passado, presente e futuro.  Os pajés faziam uma bebida à base da jurema branca (Pithecellobium diversifolium, Fabaceae) e outra à base da jurema negra (Mimosa tenuiflora, Fabaceae). Também eram utilizados Senegalia piauhiensis (syn. Acacia piauhiensis) e Anadenanthera colubrina var. cebil (syn. Acacia cebil), entre outras.  A Mimosa tenuiflora foi identificada por Richard Evans Schultes em 1993 como fonte de um alcaloide chamado nigerina, o qual posteriormente verificou ser a dimetiltriptamina (DMT), junto com as outras aminas indólicas presentes em outras espécies do gênero Anadenanthera. Esse alcaloide está presente em maior quantidade na casca da raiz, mas está igualmente disponível na casca do tronco. São relacionadas 19 espécies botânicas conhecidas por jurema. A ausência de Mimosa tenuiflora em regiões fora do Nordeste não impediu que o ritual do uso da jurema se dispersasse para outros locais, desde a chegada dos portugueses e dos escravos, com o surgimento da figura do caboclo, entidade espiritual respeitada por seus poderes de cura nas reuniões de catimbó e pajelança no Nordeste e Norte do país.


Nos últimos tempos, houve um grande aumento no número de pessoas dos centros urbanos a terem acesso a Ayahuasca (uma mistura de  cascas do caule  de Psychotria viridis (Rubiaceae) e folhas de Banisteriopsis caapi (Malpighiaceae), bebida que possui alcaloides indolicos semelhantes aos presentes no vinho sagrado da jurema e nas acácias da África, sempre usada em rituais religiosos e culturais. No entanto, no meio urbano o acesso é feito por meio da comercialização indevida, que pode acarretar sérios efeitos colaterais psíquicos nos usuários, principalmente em pessoas com histórico de transtornos mentais ou sob efeito de bebidas alcoólicas ou outras substâncias psicoativas como o ecstasy (metilenodioximetanfetamina – MDMA).

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